Tuesday, November 15, 2005

Em tempos de liberdade, jovens se calam

O movimento estudantil de décadas passadas conseguiu conquistar direitos, mas o que se vê hoje é a classe universitária desarticulada e sem visão crítica

Alex Alves Pereira

A militância dos estudantes hoje é muito diferente quando comparada com a de 20 anos atrás. Atualmente, vive-se em democracia. Todos podem manifestar seus anseios e exercer de forma livre sua cidadania, porém, a juventude parece desmotivada.
Gabriel Bitencourt, que foi líder do movimento estudantil e presidiu o diretório acadêmico da FAFI (Faculdade de Letras e Filosofia de Sorocaba), afirma que durante a ditadura os jovens se preocupavam mais com a sociedade. “Hoje, parece-me que os elementos de interesse imediato, como o valor da mensalidade, é que podem servir de agentes mobilizadores”. Ele ressalta, por outro lado, que há lideranças e organizadores estudantis comprometidas com seu papel social e político, e procurando despertar o interesse em seu grupo.
Para Bitencourt, a atual acomodação dos estudantes, no futuro pode mudar. “Acredito em caminhos futuros pautados pelo compromisso com as causas sociais e a ética”.
O ensino universitário no Brasil mudou, o que também contribuiu para a atual desmotivação dos estudantes.
De acordo com o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão do Ministério da Educação, 70,8% dos universitários estudam em instituições particulares, fato que não ocorria nas décadas anteriores, segundo o vereador e universitário Raul Marcelo. “Hoje a UNE (União Nacional dos Estudantes) ainda continua articulando as universidades públicas como a UNICAMP (Universidade de Campinas), UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), USP (Universidade de São Paulo) e as federais espalhadas no país”.
Para o vereador, a UNE deveria adotar uma política dirigida às universidades particulares e filantrópicas. As reivindicações são diferentes. O vereador cita como exemplo o fato de os alunos da USP estarem mais preocupados com investimento em pesquisas enquanto os da Uniso (Universidade de Sorocaba) querem xerox mais barato.
O psicólogo Ivonaldo Ribeiro diz que a USP ainda é uma das poucas universidades que brigam pela qualidade de ensino. “As agremiações que representam os estudantes de Sorocaba estão mais preocupadas em promover festas do que melhorar a qualidade do ensino”.
O assessor de comunicação do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da Uniso, Eduardo Furlan, acredita que não se pode comparar universidade publica com privada. “Os interesses das faculdades públicas são diferentes dos das privadas. Segundo o professor da Uniso Juliano Mauricio de Carvalho, que foi presidente do DCE da PUC – Campinas, em seu tempo de universitário, os DCE´s e os CA´s (Centros Acadêmicos) tiveram um importante papel na política universitária, mas hoje estão sendo influenciados por partidos políticos. “O PC e o PCdoB estão liderando o movimento estudantil há duas décadas”, conta.
De acordo com o professor, cidadania não depende apenas de formação intelectual. “Se assim fosse, apenas pessoas graduadas em grandes universidades seriam bons cidadãos”, comenta. Para Mauricio de Carvalho, cidadania é algo que depende muito mais da cultura social do que da formação em si.

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