Tuesday, November 15, 2005

Estresse gera problemas na rede de ensino

Aumenta o número de professores afastados para tratamento psicológico

Alessandra Camargo

Crises de tensão aguda, depressão, síndrome do pânico. Estas são algumas das doenças causadas pelo estresse. Na profissão de professor não é diferente, principalmente na rede pública de ensino.
Salas de aula superlotadas, falta de respeito, escrúpulo e educação da maioria dos alunos, das redes estaduais e municipais de ensino de Sorocaba têm levado cada vez mais professores a pediram afastamento por doenças provindas do estresse.
Com jornadas de até 64 horas semanais, alguns acabam sendo afastados e muitas vezes não conseguem voltar a lecionar. Um professor da rede estadual de ensino ganha R$5,85 reais hora/aula e quando pedem licença ou são afastados, acabam perdendo os benefícios como férias, licença-prêmio e outros.Para alguns acaba não sobrando dinheiro.
Na APEOESP, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, sede de Sorocaba, a professora de matemática Isabel Martinez, 20 anos de profissão, diz estar se recuperando de uma depressão que a deixou afastada um ano.
De volta à ativa, Moreno diz que a maior causa de doenças psicológicas e crises de estresse provêm da falta de limite dos alunos.“Eles não me deixavam explicar a matéria e quando eu pedia para que saíssem da sala, nem escutavam”, diz Isabel, referindo-se à arrogância de alguns alunos da escola estadual onde lecionava.
A professora afirma nunca ter sofrido nenhum tipo de agressão física, mas já presenciou muitas sofridas pelos colegas de profissão.“Já vi alunos jogando a carteira no professor e outros os empurrando até caírem no chão”, recorda Isabel. Ainda segundo a professora, há anos atras, os jovens tinham pai, mãe e irmãos em casa e existia uma certa hierarquia familiar que servia para educar e ensinar. “Atualmente para muitos pais e para a maioria dos alunos, o papel do professor é educar e se não consegue fazer isso, sofre uma pressão muito forte”, afirma Martinez.
Para Ana Laura Pereira Camargo Moreno, 36 anos e há cinco lecionando Educação Física, o maior interesse dos alunos na disciplina é a chave para não haver tanto abuso e falta de respeito. Segundo ela, nas aulas de Educação Física quando ocorrem demonstrações de rebeldia ou falta de limite, estas são geralmente mais agressivas que em outras disciplinas.
“O contato com o aluno é maior e demonstram muita violência entre eles e acabam descarregando os problemas geralmente familiares no professor”, comenta Ana Laura conta que nunca chegou a ser agredida por alunos, mas já teve seu carro riscado enquanto estava dando aula. A professora lembra que certa vez presenciou alunos seus no telhado da escola. “Parecia uma rebelião da Febem”, compara Moreno.
Para as duas professoras, o que teria que ser mudado para que os professores da rede pública fossem mais valorizados e respeitados é o sistema de ensino.
Ana Laura comenta que à medida que os pais deixam seus filhos em casa para trabalhar, estes ficam com a sensação de liberdade e quando chegam na escola pensam que podem tudo.
Outra fonte de estresse é a falta de apoio da direção das escolas. “Na escola onde eu trabalhava, a direção muitas vezes dava apoio ao aluno em algumas demonstrações de rebeldia”, declara Isabel. Ela diz ainda que no 3º colegial há um número menor de indisciplinas que na 8ªsérie, embora os atos indisciplinares do colegial sejam mais graves.
Elas também reclamam que os professores da rede pública não possuem nenhum tipo de apoio psicológico, neurológico e dermatológico, este último para professores que apresentam alergia a giz.
A falta desses profissionais e também de planos de saúde faz com que os professores com problemas psicológicos ou estresse tenham de pagar os tratamentos do próprio bolso. Muitos deles procuram as Santas Casas ou optam por profissionais particulares.
Isabel, por exemplo, utiliza há um ano 60mg de um medicamento antidepressivo e diz que o acesso de professores a psicólogos e psiquiatras da rede pública de saúde é muito difícil.
Ana e Isabel, de duas gerações diferentes, disciplinas distintas, têm um pensamento semelhante: o de que o professor de hoje é um “centro de cobranças”, dos alunos, das diretorias e deles próprios. Por outro lado, elas não perdem a esperança de um novo método de ensino e nem o amor pela profissão que escolheram.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home